quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Imaginação e atitudes agressivas do grupo Afropress e ABC sem Racismo

Olha, é extremamente difícil de acreditar que pessoas bem intencionadas como o grupo da Afropress / ong ABC sem Racismo estejam se dedicando a atacar de tal maneira o Fábio Paiva, fundador da ong Pelo fim do holocausto animal. Ele é uma pessoa extremamente séria e dedicado a uma causa nobre, de incentivar às pessoas que respeitem e não causem sofrimentos aos animais.

Não conhecia a equipe da Afropress, mas pelo visto se dedicam a promover a causa das pessoas afrodescendentes. É ótimo haver grupos deste tipo, buscando superar a tradição tão negativa dos anos pós abolição da escravatura no Brasil. Eu mesmo gosto muito da cultura afro-brasileira: pratico capoeira e adoro este esporte/cultura/música, fiquei muito feliz de conseguir meu primeiro cordão, com o mestre João de São Paulo, e aprender a fazer tantas manobras que não conseguia antes.

Aparentemente, apesar desta equipe estar tão afinada com a causa dos afrodescendentes, que já passaram por tantas dificuldades e ainda passam, pela abolição oficial de sua escravatura no Brasil ter sido relativamente recente, no fim do século XIX, esta equipe, apesar de dizer que o faz, não considera o sofrimento dos animais, que são tão sensíveis como os humanos, e assim também merecem a abolição de seu sofrimento e consideração de sua dignidade, e resolve atacar um dos mais ativos defensores dos animais, o Fábio Paiva. Lembrar que os defensores dos animais como ele são extremamente necessários, porque os animais não podem se defender ou lutar por seus direitos.

Dignidade universal

Fábio Paiva, como outros defensores dos direitos animais, tem uma profunda consideração e respeito pela dignidade dos seres. Ora, assim sendo, como poderia ele ter a remota intenção de ofender ou discriminar a segmentos da espécie humana, que também é uma espécie animal, a tal Homo sapiens? É um raciocínio fácil de ser feito, creio eu, que ele não teria essa intenção.

Difícil imaginar como alguém pode entender que a comparação de imagens e fatos feita por Fábio, um ativista dos direitos animais, não esteja se referindo ao sofrimento e discriminação por que passaram animais humanos, neste caso por simples diferença de etnia e/ou religião, e por que ainda passam animais não humanos, neste caso por simples diferença de espécie.

Se alguém quisesse de fato, hipoteticamente, comparar humanos a outros animais (considerando que isso seja uma ofensa; aliás, é interessante notar como é fortíssimo este preconceito humano com os outros animais), não precisaria utilizar imagens de sofrimento. Poderia pegar imagens de humanos e de outros animais numa situação qualquer, mais padrão, digamos.

Quem parece estar agindo de maneira preconceituosa é a ong ABC sem Racismo / Afropress, porque atribuem a hipotética comparação do humano com outros animais como um insulto. Ou seja, consideram os outros animais seres extremamente inferiores. Por isso são incoerentes ao dizer que apóiam a causa animal.

Insulto imaginativo e lembrança do mau

Por que seria um insulto a associação de imagens da crueldade com animais com os sofrimentos, as humilhações, torturas e mortes praticadas no escravismo de negros e no holocausto contra judeus? Ora, certos sofrimentos já são bem reconhecidos pela humanidade; outros não são. E é isso o que aparentemente Fábio Paiva quis mostrar, que o sofrimento de outros animais é tão horrível quanto foi o sofrimento de certas populações humanas.

Por acaso, lembrar sofrimentos significa insultar seus representantes? Ora, quando Picasso pintou Guernica, ele estaria insultando esta população, ao retratar e lembrar o que sofreram? Quando frequentemente se lembra da bomba atômica lançada sobre Hiroshima e Nagasaki, e se mostram os japoneses que sofreram as consequencias, se está insultando estas vítimas? Não. Se está lembrando, buscando mostrar esta dor, para que isto jamais aconteça.

E é por meio desta estrutura de lembrança, que Fábio, na situação criticada, acaba na verdade, tanto por criticar o mau tratamento aos animais, como também aos humanos que sofreram. De maneira alguma é possível imaginar que ele estaria querendo denegrir certos humanos. A frodescendentes e judeus também se manifestaram, concordando com que este insulto é muita imaginação.

De todo modo, o fato de "uma semana depois da denúncia da Afropress" as imagens criticadas terem sido retiradas, só confirma que Fábio nunca teve intenção de ofender, como ele mesmo declarou publicamente.

Conclusão: pacifismo e comunicação

Mal-entendidos sempre podem acontecer. A comunicação humana é passível de falha. E realmente é possível que alguns indivíduos possam se ofender por coisas que outros sequer imaginem. Mas, se por um acaso, Fábio Paiva acabou por ofender a alguém, por que este alguém não entrou em contato com ele, e buscou resolver a coisa de uma maneira civilizada e pacífica, como sempre almejamos todos para resolver os eventuais conflitos? Ele é uma pessoa acessível, sensata e honrada, pelo que pude conversar com ele, e pelas várias mensagens que foram enviadas em seu apoio.

Mas não, ao invés disso a ong ABC sem Racismo resolveu tomar uma decisão agressiva e mover uma representação no Ministério Público contra Fábio Paiva, um cidadão que luta por uma causa nobre. Isso é muito triste.

Maurício Kanno
Jornalista ecologista e defensor dos direitos animais

[Também publicado em http://respeitoatodos.blogspot.com/, mantido por Eliane Lima e Silas Cordeiro]

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Referências:

Ataques:
http://www.afropress.com/noticias_2.asp?id=1381
http://www.afropress.com/editorial.asp

Defesas:

http://www.holocaustoanimal.org/esclarecimento.htm
http://www.veddas.org.br/cartaaomovimentonegro.htm
http://respeitoatodos.blogspot.com/

2 comentários:

Thomaz Napoleão disse...

Muito complicado, Xê.

Igualar o ser humano a animais, ainda mais dessa forma extrema, é o primeiro passo para desumanizar o homem. Mesmo que as intenções sejam boas, um precedente moral perigosissimo fica aberto.

Tudo o que é humano é politico, mas nada pode ser politico sem ser humano. Outras espécies não possuem memória (cultural, não a fisica), razão ou inteligência.

Não custa lembrar que as autoridades nazistas tratavam publicamente o "problema judeu" como simples questão de saude publica, despolitizando o assunto e legitimando o assassinato de milhões. Da mesma forma, os negros não eram considerados plenamente humanos pelos escravizadores.

Com o passado não se brinca. Dezenas de guerras ja foram feitas em nome do respeito à memória.

Se eu fosse judeu ou negro, também ficaria indignado com a comparação. Na verdade, embora não seja judeu nem negro, sou humano e também fiquei ofendido. Não acho que seja caso para processo na justiça, mas o Fábio Paiva no minimo deveria se retratar publicamente e pedir desculpas aos judeus e negros.

Mao disse...

Olá, Napô... Impressão minha ou vc parodiou saudação do Iberê? De td modo, obrigado pela contribuição... Meus colegas de curso sempre ajudam a refletir.

O que posso é enfatizar: o ser humano não foi igualado a animais; e sim mostrado o tratamento desumano (no sentido de cruel, apesar de os animais não serem cruéis como os humanos) que até hoje é praticado contra os animais.

As ações cometidas contra judeus e negros não foram cometidas por Fabio Paiva, sequer as incentivando; ele estava apenas lembrando delas, com horror, como uma das piores coisas da humanidade. E mostrando que isso ocorre cotidianamente com os animais.

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Como assim, nada pode ser político e ético sem ser humano? Ameaças ao planeta Terra em si e aos indivíduos de outras espécies não devem ser consideradas política ou eticamente? Com certeza os indivíduos de outras espécies não pensam em ética ou política, mas não é por isso que podemos nós, humanos, desconsiderá-las de atenção ética e política.

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Um indivíduo não ter cultura e grande inteligência não parece ser motivo para desconsiderá-lo do alvo de nossa atenção ética e política. Por acaso você pode distinguir humanos com mais ou menos inteligência e cultura, atribuindo a eles mais ou menos dignidade e direitos morais?

Bebês e pessoas com deficiência mental têm uma inteligência bem reduzida, e animais em geral não possuem inteligência zero, como você afirmou. Basta pesquisar um pouco, ou mesmo conviver com um animal de estimação para ter uma idéia...

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Os exemplos que você citou sobre como judeus e negros eram considerados como "coisas" é muito importante. Pois essa mentalidade e atitudes são semelhantes a como hoje normalmente são considerados os animais, sem a menor dignidade moral. Espero (e todo o movimento dos defensores dos direitos animais) que um dia o preconceito e crueldade contra animais seja reconhecido também.

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Ninguém aqui está brincando. Falamos de coisas muito sérias. Guerras contra animais sem chance alguma de se defender (o que se chama chacinas, acho) são feitas cotidianamente.

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Cito texto de George Guimarães: "Uma breve pesquisa teria revelado que tal comparação é largamente utilizada por prêmios Nobel, filósofos e sobreviventes do holocausto nazista, entre outros. Os livros The Dreaded Comparison e Eternal Treblinka são dois exemplos de obras que exploram a comparação como meio de sensibilização para ambas as causas, sem com isso minorar qualquer uma delas."

Você pode ler a carta aqui: http://www.veddas.org.br/cartaaomovimentonegro.htm

Eu pessoalmente não gosto de usar imagens fortes assim, nem do lado dos humanos nem dos animais. Mas também não acho que essas comparações sejam insultos. Comparar o sofrimento de um gay espancado ao de um negro ou judeu espancado significaria insulto a algum deles?

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Em tempo: esqueci de passar o link, onde estão diversos esclarecimentos a respeito do episódio, buscando unir os que lutam pelos direitos de todos: http://respeitoatodos.blogspot.com/

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O que é necessário é que isso se resolva de maneira pacífica. Todos mostrando que apenas desejam a paz, sem preconceito de etnia, religião e espécie. O próprio Fábio Paiva, em seu site, faz tempo que já se desculpou publicamente para eventuais ofendidos que não compreenderam a mensagem dele: http://www.holocaustoanimal.org/esclarecimento.htm