terça-feira, 1 de maio de 2012

Livrão de mil páginas "Xógum" mostra absurdo Japão de 1600

Pra começar, uma breve sinopse: o livro "Xógum: A Gloriosa Saga do Japão" trata das aventuras de um piloto britânico que comandava uma esquadra holandesa destroçada que vai parar no Japão. Um Japão lotado de jesuítas portugueses (inimigos dos ingleses e holandeses) catequizando um monte de japoneses, inclusive senhores feudais, conhecidos como daimios.

Esse piloto britânico e sua tripulação passam por situações horríveis, mas ele acaba por ficar muito próximo de autoridades japonesas cada vez mais elevadas, devido aos seus conhecimentos estratégicos sobre o mundo lá fora.

Paralelamente, rola um clima entre o gaijin (estrangeiro, ou "bárbaro") e a sua intérprete e tradutora, esposa de um importante líder samurai. Tudo isso é baseado em personagens históricos, com nomes trocados.



Meu Deus do Céu, quanta coisa eu aprendi sobre fatos históricos ao ler esse livro. Eu nunca imaginei que coisinhas que considerava chatas na época de escola, como Tratado de Tordesilhas, jesuítas, União Ibérica, conflitos europeus por rotas comerciais ao Oriente, e a época em si em que a Espanha era considerada a potência do mundo ocidental... Eu não imaginava que tudo isso poderia ser tão épico, emocionante, divertido, fascinante!

Além de me abrir a mente para entender e curtir da forma mais viva como nunca essas questões clássicas de História que a gente estuda no colégio (ou deveria ter estudado), enfim pude compreender a diferença gritante que existe entre a cultura contemporânea ocidental que consideramos "normal" e a cultura e a situação japonesa de 1600. Além da diferença entre o Japão dessa época e o atual - já tive a felicidade de conhecê-lo pessoalmente, por cerca de um ano em que morei lá, em parte de 2005 e 2008.

Desfile de "absurdos" culturais

Vamos especificar então exemplos das questões culturais aprendidas:

1) Nudez e sexo: O Japão não tinha o legado da Igreja Católica que colocava o corpo humano como "impuro". Também sem aquela história da maçã de Adão e Eva. Se as pessoas iam nadar, não havia nenhum problema em todo mundo, homens e mulheres, tirarem a roupa e caírem na água. Além disso, me surpreendeu como as mulheres e jovens meninos (adolescentes) eram facilmente oferecidos para satisfazer necessidades por sexo de certos homens, até mesmo dos estrangeiros.

2) Seppuku e honra: O que mais me marcou mesmo foi a falta de valor à vida em si. A honra era muito mais importante. O tempo inteiro eu via gente se matando, ou pedindo permissão ao superior para se matar para preservar a própria honra e a da família, quando houvesse cometido alguma falta. Creio que isso tem a ver com a religião budista, segundo a qual o humano renasceria em muitas vidas. Mas lógico que não é só por ela, mas pela dura tradição que se estabeleceu.

3) Mulher e obediência: A mulher japonesa tinha como maior virtude a obediência. Ao marido e aos outros homens. Se o marido quisesse espancá-la pelo motivo que bem entendesse, era direito dele.

4) Católicos e portugueses: Já mencionei acima como havia numerosos jesuítas católicos espalhando o catolicismo no Japão de 1600, assim como havia no Brasil. Eu me espantei como havia tantos! Eles inclusive tinha proteção do Estado. Aliás, a língua usada para a comunicação entre o piloto britânico e os japoneses era o português!

5) Hierarquia e castas: Incrível ver como a autoridade e hierarquia entre classes sociais (ou poderia chamar até de "castas") era importante. A narrativa do livro foi inclusive aos poucos subindo cada vez mais o nível de autoridade com que o estrangeiro lidava, permitindo-nos perceber bem isso. E podemos ver como os camponeses se ajoelhavam para os samurais, que se ajoelhavam ao senhor feudal, que se ajoelhava aos seus superiores em escalas crescentes. Por qualquer razão os de nível inferior eram ameaçados de morte ou realmente eram assassinados pelos superiores.

6) Animais para comer: Os japoneses ficavam horrorizados com o hábito "nojento" do estrangeiro de comer "carne". Apesar de que eles também comiam carne: carne de peixe, que também é um animal que sente dor e tem diversas outras capacidades mentais e emocionais. E com base nisso (entre outras justificativas, que você encontra aqui) eu hoje acho errado o consumo humano de qualquer produto de origem animal e sonho que essa prática termine um dia.

Cultura x Direitos

Pois é, ainda que bem reduzidos, todos esses traços culturais persistem de alguma maneira no Japão contemporâneo. Posso compreender melhor agora o legado cultural dessa nação tão impressionante. Nos sentidos positivo e negativo.

Além disso, por mais que eu com certeza vá prosseguir na defesa de certos valores, como direitos humanos, das mulheres e dos animais, o livro tem sido uma grande lição para ter mais paciência com quem tenha pensamentos tão diferentes dos meus.

É o que a intérprete japonesa católica do piloto britânico no Japão de 1600 pedia a ele a todo instante, ao perceber como ele se indignava com tanta coisa que presenciava (e olha que ele era da Europa de 1600!): "Por favor, tenha paciência conosco. Verá que tudo isso faz sentido."

(A propósito, ainda estou na metade do livro, mesmo tendo me dedicado o mês inteiro de abril para essa leitura, o quanto possível. Mas estou confiante de que ainda vou terminar essa leitura, mesmo que aos poucos, durante os próximos meses, porque a história é muito cativante! Meus parabéns ao autor James Clavell e ao tradutor Jaime Bernardes!)

Tia Simone e Desafio Literário

Cumpre ainda creditar quem me concedeu essa experiência incrível. Anos atrás, ganhei o livro da minha tia Simone. Eu gosto muito de cultura oriental, ainda mais japonesa, mas não pensava que conseguiria ler um livrão desse tamanho. Afinal, nem mesmo livros menores eu tenho terminado de ler com boa frequência nos últimos anos...

Mas, animado pelo Desafio Literário 2012, organizado pela Viviane Lima, e pelo meu renovado anseio em apreciar e criar literatura (e para isso também aprender mais sobre ela), resolvi mandar ver nessa lista telefônica. :) O tema das resenhas do mês de maio do Desafio é "Fatos Históricos", e "Xógum" se encaixa perfeitamente nisso. E como nos embala nessa História!

4 comentários:

Karla disse...

Adorei a sua resenha.

Gostei muito da reflexão que vc fez do mundo oriental X mundo ocidental. Eu tb sempre que leio uma obra acabo deixando de lado o desgosto pela história na escola para entender as razões das atitudes da época.
Vou a falência nesse mês do desafio, tanto livro na lista que estou descobrindo! beijos!

Maurício Kanno disse...

oi, karla! fico feliz por vc ter lido meu texto (deu um trabalhão, assim como ler o livro!) e ter apreciado a resenha.

e realmente, esse ponto cultural de ler narrativas históricas realmente descobri que os deixa maravilhosos, não?

:)

boa sorte com o orçamento, eheh. neste ano, por enquanto só resgatei os pobres livros que estavam escondidos na minha estante...

Ana . disse...

Maurício, assim não vale, pq só vc lê livros tão legais? rsrs Nossa, nunca tinha ouvido falar de jesuítas portugueses no Japão, adoro tudo que vem de lá da terra do sol nascente, peguei até um descendente e chamei de meu marido rsrsrs Quero ler, já li Crime e Castigo que tem mais de 900 págs,li a Bíblia inteira, então não terei problemas em ler esse.
Ana
http://organizando-o-caos.blogspot.com.br/2012/05/desafio-literario-de-maio.html

Vivi disse...

Oi, Maurício. Vejo que o livro é muito rico e inspirador para inspirar uma resenha tão bem feita e apaixonada. Parece ser o tipo de leitura da qual não saímos incólumes, tanto em termos do sentir quanto do conhecer. Eu também gosto muito da cultura oriental, apesar de conhecê-la tão pouco quanto gostaria.Obrigada por compartilhar esse prazer com a gente do DL.